No vasto e rico bioma do Cerrado, poucas plantas encapsulam a resiliência e a singularidade da flora brasileira como a coroadinha (Mouriri elliptica).
Frequentemente confundida com outras espécies devido à riqueza de nomes populares, esta planta oferece frutos de sabor exótico e propriedades que a ciência começa a desvendar.
Aviso Legal (Disclaimer): O conteúdo abaixo tem caráter informativo e educacional sobre botânica e biodiversidade. Embora mencionemos usos tradicionais, nenhuma informação aqui substitui aconselhamento médico ou farmacêutico. A identificação correta de plantas silvestres para consumo deve ser feita com absoluta certeza, preferencialmente com o apoio de especialistas, para evitar intoxicações.
O que é a planta coroadinha do cerrado?
A coroadinha, cientificamente nomeada como Mouriri elliptica Mart., é uma espécie arbustiva ou arbórea nativa e endêmica do Brasil. Pertencente à família Melastomataceae (a mesma das quaresmeiras, embora com morfologia distinta), ela é uma das joias “escondidas” do Cerrado.
Diferente de plantas ornamentais populares, a coroadinha destaca-se pelo seu fruto comestível e sua resistência extrema a solos pobres e secos. Seu nome popular deriva da cicatriz em forma de coroa (cálice persistente) que permanece no topo do fruto maduro, assemelhando-se à coroa de um frade.
Classificação botânica e taxonomia
- Reino: Plantae
- Divisão: Magnoliophyta
- Classe: Magnoliopsida
- Ordem: Myrtales
- Família: Melastomataceae (subfamília Memecyloideae)
- Gênero: Mouriri
- Espécie: Mouriri elliptica Mart.
Nomes populares regionais
A riqueza cultural do Brasil se reflete nos variados nomes desta planta. Além de “coroadinha” ou “croadinha”, você pode encontrá-la descrita como:
- Coroa-de-frade: Referência direta à morfologia do fruto.
- Puçá-amarelo: Para diferenciá-la do seu “primo”, o puçá-preto.
- Croada: Uma variação fonética comum em Goiás e Minas Gerais.
- Mouriri: O nome do gênero, usado em contextos mais técnicos.
Características morfológicas para identificação segura
Identificar a planta coroadinha do cerrado exige atenção aos detalhes, especialmente porque ela convive com outras espécies de aparência similar nos campos sujos e cerradões.
O tronco e o porte
A planta geralmente se apresenta como um arbusto ou pequena árvore, variando de 2 a 5 metros de altura. O tronco é tortuoso, típico da vegetação do Cerrado, com uma casca (ritidoma) grossa, suberosa e profundamente fissurada, adaptada para resistir ao fogo.
Folhas e folhagem
As folhas são um indicador chave. Elas são:
- Opostas: Nascem em pares ao longo do ramo.
- Coriáceas: Têm textura dura, lembrando couro, para evitar a perda de água.
- Elípticas: Daí o nome científico elliptica, com coloração verde-escura brilhante na face superior.

Flores e época de floração
A floração é um espetáculo à parte. As flores surgem diretamente nos galhos (ramifloria), aglomeradas em fascículos. Elas possuem pétalas brancas ou levemente rosadas, com estames amarelos vibrantes que atraem muitas abelhas.
No Cerrado, a floração ocorre geralmente entre agosto e setembro, variando conforme as chuvas.
O fruto da coroadinha: sabor e curiosidades
O fruto é o grande atrativo da Mouriri elliptica. Ele é uma baga globosa ou elipsoide, que muda de verde para um amarelo-alaranjado intenso quando maduro (entre outubro e dezembro).
Perfil de sabor: o “queijo” do cerrado
Uma das características mais intrigantes relatadas por fruticultores e nativos é o sabor da polpa. Embora seja adocicada, ela possui uma textura pastosa e um retrogosto que muitos comparam a queijo curado ou laticínios fermentados.
A polpa é escassa, aderida a sementes grandes, mas é considerada uma iguaria para quem aprecia sabores exóticos.
| Característica do Fruto | Detalhes |
|---|---|
| Cor da Casca | Amarelo-alaranjado quando maduro. |
| Polpa | Farinácea, pastosa, doce e aromática. |
| Sementes | 1 a 2 sementes grandes por fruto. |
| Consumo | In natura, sucos, licores e doces. |
Diferença crucial: Coroadinha (Amarela) vs. Puçá (Preto)
Um erro comum entre entusiastas da flora brasileira é confundir a Mouriri elliptica (Coroadinha) com a Mouriri pusa (Puçá-preto). Ambas são do mesmo gênero e habitam o mesmo bioma, mas têm diferenças fundamentais.
| Aspecto | Coroadinha (Mouriri elliptica) | Puçá-preto (Mouriri pusa) |
|---|---|---|
| Cor do Fruto | Amarelo ou Alaranjado | Preto ou Roxo-escuro |
| Tamanho da Planta | Geralmente menor (arbustiva/arbórea) | Pode atingir maior porte arbóreo |
| Sabor | Lembra queijo/laticínio, doce | Mais suculento, doce, lembra jabuticaba |
| Habitat | Campos sujos, cerradões | Cerrado sentido restrito, áreas pedregosas |

Usos tradicionais e potencial medicinal
No conhecimento popular, a coroadinha vai muito além de um simples alimento para a fauna.
Aplicações medicinais em estudo
Estudos etnobotânicos e pesquisas iniciais de fitoquímica sugerem que extratos das folhas da Mouriri elliptica possuem compostos inibidores de enzimas ligadas à digestão de carboidratos, o que desperta interesse para o controle de diabetes. Além disso, infusões das folhas são usadas tradicionalmente em algumas regiões de Goiás como anti-inflamatório e cicatrizante. Contudo, o consumo medicinal deve aguardar validação clínica robusta.
Importância ecológica
A coroadinha é uma espécie “chave” para a fauna. Seus frutos amadurecem no início da estação chuvosa, servindo de alimento vital para:
- Aves dispersoras (sabiás, periquitos).
- Mamíferos de médio porte (raposas-do-campo, quatis).
- Insetos polinizadores (durante a floração).
Onde encontrar a coroadinha no bioma Cerrado
Esta planta não ocorre em todo o território nacional. Sua distribuição é concentrada nas áreas de Cerrado do Centro-Oeste e partes do Sudeste.
Estados de ocorrência predominante
- Goiás (GO): Onde é mais abundante e conhecida.
- Tocantins (TO): Em áreas de transição e cerradões.
- Minas Gerais (MG): Especialmente no oeste do estado.
- Mato Grosso do Sul (MS): Em áreas de cerrado arenoso.
Habitat preferencial
Você encontrará a Mouriri elliptica prosperando em solos Neossolos Quartzarênicos (solos arenosos) e latossolos vermelhos. Ela prefere áreas ensolaradas, como o Campo Sujo e o Cerrado stricto sensu, suportando bem os períodos de seca prolongada.

Erros que você deve evitar
Ao buscar pela coroadinha, seja para fotografia, pesquisa ou coleta de frutos, evite estes erros comuns:
1. Confundir “Coroadinha” com “Coroanha”
Este é o erro mais grave. A Coroanha (Dioclea malacocarpa) é uma leguminosa trepadeira que produz sementes grandes e duras (olho-de-boi), usadas medicinalmente mas potencialmente tóxicas se mal preparadas. A Coroadinha (Mouriri elliptica) é um arbusto frutífero. Os nomes são parecidos, as plantas são opostas.
2. Coleta predatória
A Mouriri elliptica é considerada uma planta rara em muitas regiões e possui germinação difícil. Arrancar galhos para pegar frutos prejudica a frutificação do ano seguinte. Colete apenas os frutos caídos ou maduros, sem danificar a estrutura da árvore.
3. Consumo de frutos verdes
O fruto da coroadinha é rico em taninos quando verde, o que causa uma sensação forte de “cica” (adstringência) na boca, tornando a experiência desagradável.
Glossário de termos
- Ritidoma: A casca externa e morta do tronco das árvores.
- Coriácea: Textura semelhante a couro, resistente e grossa.
- Ramifloria: Quando as flores e frutos nascem diretamente nos ramos lenhosos, e não nas pontas novas.
- Cálice persistente: Parte da flor que não cai após a fecundação, formando a “coroa” no fruto.
- Endêmica: Espécie que ocorre exclusivamente em uma determinada região geográfica.

Perguntas frequentes (FAQ)
A planta coroadinha do cerrado é comestível?
Sim, o fruto da coroadinha (Mouriri elliptica) é comestível. Sua polpa amarela é doce, farinácea e possui um sabor único que lembra queijo ou laticínios fermentados, sendo consumida in natura ou em doces.
Para que serve a planta coroadinha?
Serve principalmente como alimento para a fauna nativa e para recuperação de áreas degradadas. Na medicina popular, suas folhas são utilizadas em infusões para tratar inflamações e auxiliar no controle da glicemia, embora falte comprovação clínica definitiva.
Qual a diferença entre coroadinha e coroanha?
São plantas totalmente diferentes. A Coroadinha (Mouriri elliptica) é um arbusto que dá frutos amarelos comestíveis. A Coroanha (Dioclea spp.) é um cipó que produz sementes duras e medicinais, não sendo uma fruta de mesa.
Como plantar a coroadinha do cerrado?
A propagação é feita por sementes, mas a germinação é lenta e difícil. Recomenda-se plantar a semente logo após o consumo do fruto, em substrato arenoso e mantido úmido, com emergência podendo levar de 40 a 90 dias.
A coroadinha está em extinção?
Ela não está na lista vermelha oficial como extinta, mas é considerada rara. Devido ao avanço da agricultura sobre os cerradões e campos sujos, as populações naturais de Mouriri elliptica têm diminuído drasticamente, exigindo conservação.
Por que ela é chamada de coroa-de-frade?
Devido à cicatriz circular no topo do fruto. O cálice da flor permanece no fruto maduro, criando um desenho que lembra a tonsura (corte de cabelo circular) dos frades antigos.
Qual a altura da planta coroadinha?
Geralmente atinge entre 2 a 4 metros de altura. Em condições ideais e solos mais profundos, pode chegar a 5 ou 6 metros, mas tipicamente mantém um porte arbustivo retorcido.
Onde encontrar mudas de coroadinha?
É difícil encontrar mudas comerciais. A melhor chance é em viveiros especializados em flora nativa do Cerrado, localizados principalmente em Goiás e no Distrito Federal, que focam em reflorestamento.
Conclusão
A planta coroadinha do cerrado (Mouriri elliptica) é um testamento da biodiversidade resiliente do Brasil central. Mais do que um fruto de sabor curioso que lembra queijo, ela representa um elo vital na cadeia alimentar do bioma e um tesouro genético adaptado a condições adversas.
Ao aprender a identificar corretamente a coroadinha, diferenciando-a de suas “gêmeas” de nome ou aparência, você contribui para a valorização da flora nativa.
Seja admirando sua floração nos campos sujos ou degustando seu fruto raro, a Mouriri elliptica merece ser conhecida, protegida e celebrada.


